Histórias pra contar #1 edição : capitulo 1 - Litinho


 
       Olá pessoal 

     Novo quadro no ar, convidei meu amigo Marcelo para abrir seus escritos e contar algumas histórias para nós, espero que gostem. Sempre na 2° e 4° sextas do mês. Espero que curtam o texto, edições e imagens adicionais por minha conta. 

Veja os outros capítulos que saíram :  
Capítulo 2 :  https://goo.gl/BM9JRm
Capítulo 3 :  https://goo.gl/rnw7uf




Litinho



Capítulo 1 por Marcelo Oliveira 


     Me chamo Manoel Francisco das Oliveiras, mais conhecido como Litinho, desde o alto do morro, até o fim do caminho. Sou tocadô de primeira categoria. Sei fazer graça, embolada, seresta e cantoria. Na igreja do padre Tião aprendi a rezar missa e ganhei até incumbência no dia de romaria, quando o pobre homem sacro fervia de febre a caixola e demorado se arrastava pelos pátios da paróquia. Num queixume a contragosto me pediu um obséquio: 


— Litinho, meu filho. Cuidarei do presépio, mas o vinho acabou. Me faça um favor? Vá junto com Nicanor até a praça do centro, já está tudo reservado pro dia santo feriado que se aprochega do sertão. Diga que é pra paróquia do padre Tião. Procure pelo senhor Geraldo e me traga o combinado, Jesus há de lhe abençoar.


     Pois já lhes aviso logo que história doida hei de contar, no dia em que fui fazer um favor pro padre e acabei por me embriagar. Deus do céu que me perdoe, mas não foi má intenção. Me perdi contando história e desviei minha atenção. Talvez seja essa a tentação descrita no evangelho, que faz o cabra desatinar perder a carteira e até o chinelo. Voltar para casa na escuridão, sem saber o rumo certo. Tropeçar em cerca, arame farpado e se não tiver muito coidado, acordar em meio ao gado sob o sol do meio dia, sendo procurado pela família, que mal suspeita a estranheza de um dia de bebedeira na praça da Lua Cheia, aqui em Cabobró. Pois vejam só, o culpado foi um só. Nicanor...


     Pois vejam só! O culpado foi Nicanor, que encontrou Zeca Pereira e uns outros da Villa Antiga - acompanhados de um tal doutô - na porta do botequim e, em meio ao falatório e algazarra, resolveu ali apostar quem bebia mais cachaça, fazendo troça e ameaça, olhando pra dentro do bar. Passando de mesa em mesa, sem ter um pingo de fineza, começou a perguntar:


— Existe alguém capaz de nos desafiar???


     Claro que coisa boa não ia dar. No ápice da euforia ouviu-se uma voz franzina de um velho senhor - tinha bem uns 600 anos-. Levantou-se manquitolando e peitou o meu amigo que, se fazendo de ofendido, jogou o dinheiro no balcão, pedindo de supetão 6 copos de pinga. Ave Maria! O circo estava armado e eu, pobre coitado, que queria desanuviar, entrei nessa roubada sem nem ao menos conta me dar.

     No quarto copo de cachaça me apareceu aquela flor, alva feito algodão, da cintura de violão, do cabelo cacheado, de sorriso tão bonito que deixou meu coração aflito, meu espírito acuado, congelando o semblante. Podia até tocar o berrante no pé do meu ouvido que ,se quer duvido, daquele sonho acordaria.Saiu de dentro do bar e foi seguindo rumo à padaria. Vinha acompanhada de uma cadelinha marrom, solta, sem coleira. Sentia meu coração feito batedeira, minha respiração faltava, enquanto Pedro de João - amigo do tal doutô- me observava, e, vendo meu desatino, logo se precipitou em ter comigo...


— Tire essa moléstia daí, rapaz! Isso é a doença que dá na cana. Suga todo o suco e faz a pobre morrer. Tamanho enguiço, pior compromisso, infelicidade da maior marvadeza carregada de torpeza por essas veredas aqui do meu sertão.

— Quem é essa galega, Pedro de João? Me diz ,cabra? Tu conhece essa cabrocha ou não? - Meu coração batia acelerado e eu me estremecia todo. Não sabia se era a febre-tifi ou se era a cachaça querendo compassar, só sei que a doidice era tanta que me faltava todo o ar.

— Seu nome? - Indagou-me Pedro. — Seu nome? Se chama Catharina. Catharina de Serafim. Entrou em minha vida e saiu sem ao menos se despedir. - O rosto de Pedro tomou uma feição retorcida, num meio sorriso dorido. Só que, ao ver aquilo, apesar de entender o que significava, eu, por algum motivo, não me aguentei e cai na gargalhada.
 
— Pois não ria não, seu moço. Que ela te joga no fundo do poço sem sequer titubear. Se fores esperto se escafeda agora ou andarás no fio da navalha enquanto ela ri da tua cara aprumando com flores o teu caixão. Ô cão, pensei comigo. Que habilidade é essa de controlar o coração alheio? Raimundo Fagner que me perdoe, mas essa tristeza de amor não dá pra esconder em canteiro. Certo mesmo é Belchior, que sofre logo sem dó enquanto todos sonham. Parece que até o mais experiente marinheiro cai no canto dessa sereia. Ela é pedrada, balada e fogueira. Deve ser por isso que o sangue arroxeia. Pois essa diaba, meus senhores, sem sombra de dúvidas é porreta.
 
— E mais um conselho que vos digo... — Continuou Pedro se fingindo prestativo. — Senão quiseres acabar como eu, meu amigo, deixes de lado esse sorriso menino e pare de bobeira. Corra para o mais longínquo abrigo que exista nesse certame. Agora... Se mesmo assim optares que ela vos chame... Entregue logo esse coração para que ela o destrua e, assim então, o ame.
 
      Fiquei arretado e o punho fechou. Vi levantando, lá no fundo, Zeca Pereira e Nicanô. Os únicos que continuaram sentados foram o velho franzino e o tal doutô. Até o seu Joaquim, dono do bar, correu pra apartar a briga, mas de nada adiantava, pois em meio a pataquada e as palavras mal ditas, Pedro e eu caímos em desarmonia e começamos a nos engalfinhar.
 
— PAAAAAAAAAÁRA! — Todos gritavam no bar.



Continua no próximo capítulo...

É isso, pessoal 
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